Proposta do GT ANPUH/SC de História Antiga e Medieval para o Debate sobre a BNCC

23/02/2016 06:43

Proposta do GT ANPUH/SC de História Antiga e Medieval

para discussão da Base Nacional Comum Curricular 

Segundo a proposta da Base Nacional Comum Curricular, “uma questão central para o componente curricular de História são os usos das representações sobre o passado, em sua interseção com a interpretação do presente e a construção de expectativas para o futuro.” Ou seja, a questão essencial não é qual o conteúdo que deve ser trabalhado, mas qual a função que se quer atribuir ao ensino de história em nosso país. Na leitura da proposta da BNCC, compreendemos que o que está em perspectiva é a construção da consciência de cidadania. Mas qual cidadania? A dos cidadãos brasileiros perante o mundo ou dos cidadãos brasileiros no mundo? A experiência cotidiana como ponto de partida só tem valor como ferramenta na constituição das ações, quando o ser ou cidadão também percorre a longa jornada através das motivações futuras de emancipação, projetos e utopias, ao mesmo tempo em que alcança a percepção que a experiência humana milenar também o constitui.

Somos a favor da defesa do ensino de História como parte integrante da didática da História, uma disciplina que lida com reflexões, estudos e análises de ações essencialmente humanas, que lança seu olhar sobre objetos que são diversos, tanto cronológica quanto geograficamente. Não somos, definitivamente, favoráveis à (re)produção de uma história excludente, desconectada e isolada de outras visões historiográficas, outras temáticas e outras sociedades.O mosaico de formações culturais que verificamos nos diversos regionalismos brasileiros pode servir como motivação para a reflexão de que é exatamente na riqueza da diversidade humana que encontramos a matéria que nos reúne e nos constitui como uma comunidade. E, em um mosaico maior, a diversidade cultural regional brasileira não está desconectada das formações históricas mundiais. Consideramos que as histórias local, regional e nacional precisam ser ensinadas em relação a uma história da humanidade e como parte dela: nem centro, nem periferia. Uma vez compreendido isto, e em sintonia com o que a historiografia internacional tem chamado de “transnational history” ou “world history”, a área de História na Base Nacional Curricular Comum brasileira não pode deixar de apresentar referências diretas e específicas ao seu passado antigo e medieval. Afinal, o Brasil foi e é constituído pelas matrizes africanas e indígenas (devidamente apresentadas na primeira proposta do documento de base aberta à consulta pública), mas também pelas europeias. Porém, na formação da cidadania crítica e consciente, o ensino de História deve transcender identidades nacionais em direção ao reconhecimento de outras culturas. Por isso, o estudo de quaisquer sociedades em diferentes temporalidades nos interessa na mesma medida.

A considerar essas perspectivas, o GT de História Antiga e Medieval da ANPUH/SC propõe a “descolonização” da História. Uma história medieval e moderna não precisa ser uma história da Europa, deve ser, por outro lado, uma história da África, da Ásia, da América e da Europa inter-relacionadas, por exemplo, pelas rotas comerciais, pelas convivências e conflitos religiosos, pela busca e troca de conhecimento e também, é claro, pela exploração e disputa de poder. Da mesma forma que uma História da Idade Média não deve ser contada a partir da Europa, uma história da África não deve ser contada a partir do Brasil, o que reforçaria uma perspectiva centrada na identidade nacionalista, a qual todos queremos combater. Objetivamente, propomos temas como: a história das sociedades bizantina, islâmica, africana, celta, mongol, turca, chinesa, germânica, judaica  na Idade Média, bem como suas formações políticas, sociais, religiosas, jurídicas e econômicas, a considerar o convívio e o conflito entre elas, e que essas só podem ser abordadas e compreendidas a partir de um estudo da História que ultrapasse as fronteiras cronológicas e geográficas. Pois, nenhuma dessas sociedades desenvolveu-se isolada das outras. Da Antiguidade, torna-se incontornável que em um texto como o da BNCC conste a obrigatoriedade do ensino da História das Culturas do Vale do Indo e do Rio Amarelo, das Culturas Cuneiformes, Persa, e do Israel Antigo, das sociedades africanas antigas, como aquelas do Egito pré-dinástico e faraônico, da Núbia, do Reino de Kush, etc., bem como a História das Sociedades Mediterrâneas Antigas, como a grega e a romana. Do mesmo modo, do período medieval, temas como as formações dos reinos europeus, o debate sobre o feudalismo, o nascimento, institucionalização, expansão e rupturas da História da Igreja cristã, as Cruzadas, as guerras, as epidemias e as relações de gênero na Idade Média igualmente não podem ser excluídos da formação dos estudantes brasileiros. A extensão deste repertório pode parecer impraticável, mas o caminho para a abordagem reflexiva desses temas está na perspectiva da interconexão da História que nossos jovens devem poder experimentar.

O não delineamento e desenvolvimento de temas desta natureza podem fazer com que reflexões historiográficas mais abrangentes deixem de ser desenvolvidas, o que causaria o imenso défice teórico, bem como carência de orientação e sentido das temáticas históricas nacionais.  Além disso, aumentaria o fosso de desigualdade entre os jovens brasileiros de classes sociais diferentes, uma vez que as famílias com melhor condição financeira e social teriam maior facilidade de acessar outros meios de difusão de conhecimento da história universal para seus filhos, criando castas intelectuais. É necessário ser compreendido, que o combate a uma história eurocêntrica não deve ser feito pela recusa ou pelo silêncio, mas pela crítica descolonizadora, somente possível por meio do conhecimento crítico da história mundial. Nossos jovens devem ser capazes de debater e criticar, principalmente, quando houver a necessidade de diálogos em contextos internacionais. Eles possuem o direito ao conhecimento para além dos filmes e jogos de temática antiga e medieval.

Assim sendo, acreditamos que trabalhar com a diversidade temática no ensino de História seja uma ferramenta fundamental para se combater visões centralistas unilaterais do passado e socialmente excludentes, justamente, no momento presente mundial, o qual se movimenta no sentido contrário, o da integração, do respeito à diversidade e à tolerância, do conhecimento do outro e, por fim, de nós mesmos. Por esse caminho, o jovem brasileiro pode encontrar sua consciência de cidadania não através do orgulho de uma identidade nacional, repetindo sistemas de exclusão, mas pelo entendimento que a história não é brasileira, chinesa ou europeia, mas humana, dos homens no tempo, e que de alguma forma, por mais distante temporal e espacialmente que uma história possa parecer, ou mais diversa, essa história também o constitui.

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